O futuro da pecuária extensiva passa pelo Associativismo!

A importância do associativismo e da organização do sector produtivo foram aspetos focados em praticamente todas as comunicações apresentadas no maior congresso veterinário nacional, assim como, o papel da pecuária extensiva enquanto ferramenta fundamental no ordenamento do território, combate aos incêndios e coesão do mundo rural.

Sob o lema “juntos somos mais fortes” Maria Luz Blanquéz, diretora comercial da COVAP, trouxe o testemunho da maior cooperativa pecuária de Espanha que nasceu perto de Córdoba numa zona de solos pobres e de pessoas resilientes. “Quando não há recursos temos que ter estratégia e foi este pressuposto que impulsionou Ricardo Delgado Vizcaíno, há 64 anos, a fundar a COVAP com o objetivo de oferecer produtos de qualidade desde a origem”, refere Luz Blanquéz acrescentando que o lucro gerado é investido naquele território. Atualmente a COVAP conta com 4.500 produtores pecuários associados e com 978 colaboradores, números reveladores do sucesso desta cooperativa que opera na indústria do leite, da carne e da alimentação animal. “Exportamos para trinta países e nos últimos anos temos feito um grande investimento na certificação dos nossos produtos o qual nos permite entrar em nichos de mercado muito exigentes”, acrescenta a diretora comercial da COVAP, referindo como áreas de apostas futuras a estratégia de sequestro de carbono junto dos produtores e a autonomia energética das fábricas da Cooperativa. Fernando Antúnez, diretor financeiro da COBADU, cooperativa com grande expressão ibérica a operar em Portugal, mostrou a importância da profissionalização das Cooperativas no êxito do sector primário. “A parte representativa está completamente separada da parte executiva e a COBADU tem uma filosofia flexível com o sócio dado que é ele que decide qual a relação que quer ter connosco assente nos princípios da qualidade, compromisso, proximidade e confiança”, refere Fernando Antúnez acrescentando que começaram por produzir ração animal, em 1982 perto de Zamora, e atualmente, com a diversificação estrategicamente pensada, têm soluções capazes de responder às necessidades de todo o sector pecuário. Em Portugal o associativismo começa a ganhar importância junto dos produtores pecuários, mas há, ainda, um longo caminho a percorrer. A indústria e a distribuição estão organizadas e, talvez por essa razão, fiquem com a grande fatia na equação de valor, dado que o agricultor trabalha, ainda, de forma independente. Humberto Rocha da PROMERT destacou, por isso, a importância de “desenhar um animal” e organizar a produção, através do aumento da produção de proteína animal diferenciada pelas suas características sensoriais validadas e reconhecidas, destinada ao mercado interno e externo. Lideranças fortes e dedicadas nas associações onde os produtores ganham escala e aumentam o seu poder negocial foi outro tema amplamente discutido na mesa-redonda. Manuela Jorge, diretora geral da AGRO.GES, falou na importância do sector primário que vai muito para além da produção de alimentos para consumo. “Parece-me fundamental agrupar os produtores e quantificar o papel do agricultor em outros aspetos como a limpeza do território, o povoamento do interior, a manutenção da paisagem, em suma, todo o papel que o agricultor desempenha e para o qual não é remunerado” acrescentou a responsável. Em Espanha, apesar de não existir uma cultura agrária turística como em Portugal, há uma aposta em campanhas de comunicação que promovem o orgulho e o propósito social em ser agricultor. Há que comunicar corretamente o mundo rural. João Ferreira, produtor pecuário e vencedor do prémio “Inovar na Pecuária Extensiva 2023”, alertou para a importância de tornar o consumo da carne de bovino uma experiência. “Temos de entregar uma carne que vá ao encontro de um consumidor exigente. Estamos a entregar uma raça, uma história de vida daquele animal que nasceu naquele local e que foi alimentado e tratado respeitando as boas práticas de maneio e o ambiente” acrescentou João Ferreira. Ver exemplos de sucesso de modelos organizados na ótica da produção, como é o caso da Irlanda e da Polónia, e repensar a PAC no sentido de estipular os sistemas de produção mais adequados a cada território foram dois reptos deixados aos congressistas. Face às alterações climáticas que se verificam as pastagens regenerativas podem ser uma estratégia vital no sucesso das explorações de pecuária extensiva situadas em territórios em risco de desertificação como é o caso do Alentejo. Diversificar os fatores de produção, enriquecendo o solo através de um maneio holístico é uma das práticas que se encontra na Herdade de S. Luís onde o gado é visto como uma ferramenta de conservação do solo. A figueira-da-índia, originária de climas áridos, também foi apresentada como uma alternativa forrageira sustentável dado o elevado teor de água que a planta contém. José Ferrão, fundador da Pepe Aromas, referiu que a palma é rica em hidratos de carbono e fibra o que pode constituir um suplemento alternativo interessante para o gado bovino. Falou-se ainda de problemas sanitários nas explorações pecuárias como a doença hemorrágica epizoótica, apresentada por Yolanda Vaz da DGAV, que mostrou a forma como as autoridades lidaram com esta patologia que afetou dezenas de explorações nos últimos dois anos impactando significativamente a respetiva rentabilidade. Durante o dia 1 de março decorreram, em paralelo, várias conferências subordinadas ao tema “Avanços e desafios na produção equina” e foram apresentadas várias comunicações científicas propostas por investigadores universitários. Cruzando a agricultura com a cultura, as XV Jornadas tiveram patente uma exposição de escultura intitulada “Bestiário Fraterno” assinada por Maria Leal da Costa e uma exposição de peças de design em Lã com o objetivo de valorizar esta matéria-prima natural com características únicas. Nuno Prates, presidente da Comissão Organizadora das Jornadas, destacou a necessidade de união dos produtores pecuários para se fazerem ouvir a uma só voz e terem a força que merecem, sendo este um congresso impulsionador do Associativismo em Portugal que contou este ano com mais de 800 participantes.

Estratégia para a valorização da Lã em debate na “Wool Conference 2024”

A primeira conferência sobre a Lã a juntar toda a fileira decorreu no dia 2 de março em Évora e foi organizada pela Associação Nacional de Criadores de Ovinos Merino, a ANCORME. Integrada nas XV Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora, esta foi uma oportunidade para a valorização desta fibra natural, que começa na ovelha e termina na camisola. Ouvir quem produz e valorizar o potencial comercial e ambiental da lã foi o objetivo central desta conferência que juntou à mesa industriais do sector, designers, associações e produtores de ovinos.
Programas de educação nas escolas, que passam por levar as crianças ao campo conhecerem os processos de produção, e comunicar a lã como um produto sustentável e amigo do ambiente foram algumas das ideias debatidas e que podem ser concretizadas.
Jeannette Cook, consultora de comunicação na International Wool Textile Organisation, apresentou uma visão global do mercado da lã sublinhando que na Europa os consumidores valorizam esta matéria-prima natural e sustentável à medida que a poluição têxtil dispara devido ao aumento da fibra sintética, associada à mão de obra barata. Há que mostrar ao consumidor a Pegada Ecológica do Produto (PEF) e isso faz-se através de campanhas de comunicação. “A campanha “make the label count” pressupõe uma etiqueta com um código que traduza que o sistema de produção reduz a PEF e que esta questão valoriza o produto natural que polui menos, é biodegradável e sustentável”, acrescenta a consultora referindo que, à semelhança do impacto de uma má alimentação no nosso organismo, também os tecidos sintéticos afetam negativamente a nossa saúde e bem-estar.

André Almeida, professor no ISA, mostrou a importância da nutrição na qualidade da lã. “Sabemos que a lã é uma matriz proteíca e por isso é uma matéria-prima biodegradável. Se o animal não tiver uma boa nutrição a qualidade da lã fica comprometida”, acrescenta o professor que defende que sempre que possível o produtor deverá investir na suplementação dos animais para além de uma boa gestão de pastagens à base de leguminosas. João Almeida, produtor de ovinos, alertou para os cuidados a ter no momento da tosquia e do acondicionamento para que se mantenham os parâmetros de qualidade. “Há que destacar também o potencial simbólico da lã na medida em que solos pastoreados corretamente sofrem menos erosão, assim como sabemos que, territórios pastoreados têm menos incêndios”, afirma o produtor destacando o papel do associativismo como fundamental para ganhar escala e aumentar o potencial negocial dos produtores de lã. A questão da certificação é aqui fundamental para que a lã possa ser comercializada em mercados mais exigente. O consumidor pretende saber o que está a comprar e, para isso, tem que haver entidades imparciais e acreditadas para certificarem todas as fases do processo. Luís Marques da DECATHLON partilhou quais são os desafios da lã merina na produção de vestuário destacando as suas características únicas como suavidade, conforto, respirabilidade, resistência ao odor e durabilidade, ideal para o trekking. “Unir o produtor à indústria para que se consiga um aprimoramento da raça merina que produza uma lã mais fina e eu possa oferecer uma peça 100% feita em lã” refere ser este o grande desafio que está disposto a abraçar em parceria com a ANCORME. A fileira industrial em Portugal também esteve muito bem representada e está a trabalhar para redinamizar o conhecimento ancestral respondendo às exigências da indústria moderna. É o caso da Têxtil Manuel Tavares, situada na Guarda, onde existe o único lavadouro do país e da empresa “A Penteadora”, representada por António Teixeira, que refere a indústria da lã como a mais sustentável do mundo uma matéria-prima flexível, durável e amiga do ambiente. Isabel Costa, fundadora da Burel Factory, acredita profundamente que há uma enorme tendência no mundo para o consumo de lã. A empresária mudou de vida há 20 anos e dedicou-se à recuperação do património industrial que foi descobrindo na Serra da Estrela. “O equipamento estava morto, mas havia o conhecimento e quando as indústrias fecham o que se perde é o know how, muitas vezes irrecuperável. Foi este legado que nos levou a investir neste património único com o propósito de valorizar as lãs locais pegando no burel, o tecido mais pobre
usado pelos franciscanos. Começámos a comprar aos pastores da Serra da Estrela lã de ovelhas das raças mondegueira e churra e apostámos em mantas, cachecóis e camisolas”, acrescenta a empreendedora que levou mais tarde a lã para a arquitetura de interiores. Esta matéria-prima traz um conforto acústico e térmico inigualável. Reduz o consumo de energia e tem uma capacidade ímpar de absorver a humidade.
Também é usada na indústria farmacêutica no embalamento de medicamentos que necessitem de climatização. A lã é a fibra mais sustentável do mundo e a prova disso é que desde sempre aqueceu e vestiu a humanidade. É fundamental passar esta mensagem ao consumidor para que o mercado da lã volte a animar e os produtores possam também ter o respetivo retorno apostando na melhoria genética dos seus rebanhos.
A “Wool Conference 2024” contou, ainda, com uma exposição de peças de design em lã das marcas Rosa Pomar, Xi Coração e Fabricaal. Tiago Perloiro, secretário técnico da ANCORME, referiu a importância do encontro que juntou alguns dos maiores especialistas no sector da Lã a debaterem as últimas tendências e inovações tecnológicas utilizadas na produção e transformação desta fibra natural. Com uma audiência atenta e participativa a “Wool Conference” voltará a realizar-se em 2026.